Contexto
Em Moçambique, as emergências estão cada vez mais relacionadas com as mudanças climáticas, como inundações, secas e eventos climáticos particularmente extremos, como ciclones.
Os ciclones Idai e Kenneth, ocorridos em 2019 e o Freddy em 2023, são exemplos marcantes do impacto dos desastres climáticos no país. O Idai destruiu muitas pontes e pônticas de rios no Parque Nacional de Chimanimani, bem como algumas infra-estruturas na sede do Parque. O Kenneth, destruiu vários postos de fiscalização no Parque Nacional das Quirimbas e o Freddy que destruiu varias infra-estruturas na Reserva Nacional de Pomene.
Eventos desta natureza ocorrem frequentemente com pouco ou nenhum aviso prévio e apresentam impactos altamente imprevisíveis. O que sabemos é que as mudanças climáticas tornaram a ocorrência de eventos extremos mais prováveis, mais frequentes e mais intensos.
Para além dos ciclones, o fogo constitui outra ameaça relevante, podendo destruir investimentos significativos como infra-estruturas em pouco tempo.
Embora os incêndios possam ter causas naturais ou ser provocados pela actividade humana, as mudanças climáticas têm contribuído para o aumento da sua intensidade e da magnitude dos seus impactos.
É neste contexto que a BIOFUND criou o Programa de Resposta à Emergências Climáticas (BIO-CERP) para responder em tempo útil quando tais catástrofes ocorrerem em toda a rede de Áreas de Conservação (ACs) do país. O programa concentra-se principalmente no primeiro dos efeitos acima identificados, a ameaça directa aos investimentos existentes relacionados com conservação da biodiversidade.
Modelo de Financiamento
Para conceder financiamento necessário aos diferentes Beneficiários, o programa utiliza o mecanismo do endowment (Fundo do Capital) da BIOFUND.
O endowment beneficiou de uma contribuição da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), no valor de 2 milhões de Euros. O capital investido gera anualmente receitas aproximadas de 65 mil USD, que são usados para apoiar as Áreas de Conservação em tempos de crises/desastres relacionados com o clima. Quando os fundos não são usados, são reinvestidos garantido o crescimento rápido do fundo e os mesmos ficam disponíveis para os anos subsequentes
Critérios de elegibilidade
O principal critério de elegibilidade é o risco ou dano de eventos extremos, tomando como base a alerta laranja ou vermelha do Instituto Nacional de Gestão e Redução de Risco de Desastres (INGD). Os eventos extremos cobertos pelo BIO-CERP são:
- Ciclones ou outras tempestades severas (incluindo impactos de granizo ou marés de águas pluviais);
- Inundações (costeiras ou ribeirinhas);
- Incêndios florestais;
- Deslizamentos de terra.
Beneficiários Elegíveis
Como forma de agir com maior celeridade em tempos de crise os beneficiários elegíveis são:
- Áreas de Conservação (e/ou seus parceiros de Co-gestão) que são actualmente beneficiárias da BIOFUND;
- Áreas de conservação que tenham sido beneficiárias da BIOFUND nos cinco anos anteriores ao evento.
Actividades Elegíveis
As actividades financiadas pelo BIO-CERP se concentram nas três primeiras fases de uma emergência:
Fase 1: Preparação de prontidão para desastres
a) Planeamento de reposta para desastres
Elaboração de planos de resposta a desastres (PRD) para ACs
b) Implementação do Plano de Resposta a Desastres (PRD) em uma emergência específica
Quando o risco de desastre climático é identificado como iminente (impactos previstos para horas ou dias), a Área de Conservação, através do seu Administrador, pode solicitar financiamento de emergência à BIOFUND. As acções podem incluir:
- Evacuação de pessoas e bens móveis;
- Reforço da protecção de instalações;
- Transferência de equipamentos para locais seguros, conforme definido no PRD.
Para esta fase a BIOFUND tem até 20 mil USD para acções de preparação.
Fase 2: Resposta imediata pós-desastre
- Após o desastre, haverá necessidade de apoio de emergência em resposta ao desastre, como operações de busca e salvamento, transporte e distribuição de bens essenciais de socorro, etc;
- Esta actividade deve ser limitada principalmente no âmbito da AC e da zona tampão, onde a AC tem conhecimento local para ajudar na resposta imediata;
- O financiamento de até USD15.000 (quinze mil dólares americanos) estará disponível no programa para implementar estas actividades de resposta imediata. A AC através do seu Administrador pode comunicar à BIOFUND seu desejo de beneficiar deste financiamento de emergência.
Fase 3: Reabilitação, recuperação a curto prazo
- O BIO-CERP financiará reparações relativamente pequenas e urgentes, para proteger os bens e evitar mais danos;
- O BIO-CERP irá financiar avaliações de danos/perdas e definição de reparações prioritárias e os respectivos custos estimados.
IMPACTOS Alcançados pelo BIO-CERP
No âmbito do BIO-CERP, a primeira intervenção foi implementada em 2023, em apoio à Reserva Nacional de Pomene, na sequência dos impactos do Ciclone Freddy. A intervenção permitiu a implementação imediata de acções prioritárias destinadas a salvaguardar as comunidades locais, proteger infra-estruturas críticas e assegurar a continuidade das operações essenciais de conservação.
O apoio incluiu a reabilitação de infra-estruturas danificadas (postos de fiscalização, vias de acesso e pontes), fornecimento de equipamentos de emergência, reposição de meios logísticos para os fiscais, apoio à comunicação operacional (reabilitação de painéis solares), bem como medidas de estabilização ambiental para prevenir degradação adicional.
Em 2026, na sequência de chuvas intensas e inundações severas que afectaram várias regiões de Moçambique, a BIOFUND mobilizou apoio para os Parques Nacionais de Zinave, Banhine e Limpopo. A resposta foi activada em menos de 48 horas para Banhine e Limpopo, permitindo a avaliação rápida de danos, apoio logístico emergencial, reposição de equipamentos críticos e reforço das operações de patrulhamento e monitoria ecológica.
No caso de Zinave, o apoio centrou-se sobretudo em medidas de preparação e mitigação de risco, incluindo reforço de infra-estruturas vulneráveis, actualização de planos de contingência, aquisição de equipamentos preventivos e capacitação das equipas locais para resposta rápida a eventos climáticos extremos.
Actualmente, está em fase final o desenvolvimento de um Guia de Preparação e Resposta a Desastres, que irá reforçar a prontidão das Áreas de Conservação, sendo posteriormente adaptado às necessidades específicas de cada área, complementado por planos de acção e aquisição de equipamentos essenciais.
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