A conservação da floresta do Monte Mabu não protege apenas uma das mais importantes áreas de biodiversidade de Moçambique: ajuda também a regular a água, proteger os solos, reduzir a erosão e evitar custos económicos associados ao arraste de sedimentos resultantes da perda da cobertura florestal que, nos cenários analisados, podem atingir dezenas de milhões de dólares.
Publicado em 02/10/2026
Monte Mabu: estudos revelam valor económico da floresta e abrem caminho para debate sobre pagamento por serviços ecossistémicos
Esta foi uma das principais mensagens do Seminário sobre Valoração Económica da Hidrologia de Mabu e Pagamento por Serviços Ecossistémicos, realizado a 1 de Outubro de 2026, no âmbito do PROMOVE Biodiversidade, programa financiado pela União Europeia. O encontro reuniu representantes de instituições públicas, sector privado, academia, organizações de conservação e parceiros de desenvolvimento para analisar resultados preliminares de estudos sobre o valor económico dos serviços hidrológicos prestados pela floresta do Monte Mabu.
A floresta como infra-estrutura natural
Os estudos apresentados analisam uma dimensão do Monte Mabu que nem sempre é imediatamente visível: o papel da sua cobertura florestal na regulação dos fluxos de água, retenção de sedimentos e protecção dos sistemas hídricos localizados a jusante.
“A cobertura do Monte Mabu é tratada como uma infra-estrutura natural, porque protege o solo, regula os fluxos hídricos e evita custos económicos à jusante.” – Osvaldo Samo
O estudo reforça, assim, a necessidade de olhar para Mabu para além da biodiversidade. Como sublinhou Osvaldo Samo, “não podemos olhar para o Monte Mabu apenas como biodiversidade. Temos que olhar para o Monte Mabu como água também, como protecção do solo, como capital natural” para as decisões de conservação.
As microbacias existentes no Monte Mabu contribuem para alimentar o rio Lugela e, posteriormente, o rio Licungo, do qual dependem comunidades, agricultura, actividades económicas e sistemas de abastecimento de água à jusante. O levantamento hidrológico apresentado no encontro apontou também potencial para agricultura irrigada, aquacultura, turismo, produção hidroeléctrica e outras utilizações sustentáveis da água.
Perder floresta também tem um custo económico
Uma das abordagens apresentadas procurou estimar o benefício económico da conservação através dos custos de sedimentação e dragagem que podem ser evitados quando a cobertura arbórea é mantida.
O modelo identificou que, em condições de maior escoamento, a perda de um hectare de cobertura arbórea pode estar associada à exportação de cerca de 17 toneladas adicionais de sedimentos por ano para áreas a jusante. O efeito torna-se, particularmente, relevante em períodos húmidos e nas sub-bacias com fluxos mais elevados.
Foram, por isso, identificadas oito (8) das 15 sub-bacias analisadas como prioritárias para esta dimensão específica da conservação, por apresentarem maior risco de transporte de sedimentos em condições de elevado escoamento.
Quando os investigadores traduziram estes efeitos em custos potenciais de dragagem evitados, os resultados tornaram ainda mais evidente a dimensão económica da conservação.
Considerando um horizonte de dez anos, uma taxa de desconto de 6% e um custo central de dragagem de USD 5,5 por tonelada, os diferentes cenários de conservação produziram benefícios estimados que variaram entre cerca de USD 23 milhões e USD 91 milhões, enquanto o cenário progressivo (mais realista) apresentou um valor próximo de USD 50 milhões.
Estes valores não representam uma avaliação económica total do Monte Mabu. Correspondem especificamente aos benefícios modelados associados aos custos de sedimentação e dragagem potencialmente evitados, sob os pressupostos utilizados pelo estudo.
E quem beneficia da água estaria disposto a contribuir para a manutenção da floresta e, por conseguinte, disponibilidade e qualidade da água?
Uma segunda abordagem, apresentada por Gildo Nhanombe, procurou olhar para a questão a partir da procura: quanto estariam os utilizadores dispostos a pagar para manter ou melhorar o serviço de provisão de água?
A investigação analisou beneficiários à montante e à jusante do Monte Mabu e encontrou uma elevada disposição declarada para contribuir. Durante o debate, o investigador clarificou que cerca de 97% dos inquiridos à jusante declararam disponibilidade para pagar, enquanto a análise comparativa à montante apontou para um valor próximo de 96%. Este dado revela que a população de Mabu, valoriza de forma significativa a floresta e serviço hidrológico por ela prestado.
Os resultados mostraram também A capacidade económica, idade, género, escolaridade, percepção da qualidade da água, conhecimento ambiental e tipo de utilizador podem influenciar a disposição a pagar. Por isso, o estudo recomenda que eventuais mecanismos futuros diferenciem, por exemplo, consumidores domésticos por classes sociais (média e no limiar da pobreza), empresas e outros utilizadores económicos.
Quem beneficia precisa também de compreender de onde vem o serviço
O estudo identificou ainda uma diferença importante entre montante e jusante: as comunidades próximas da área de conservação têm estado mais expostas às actividades de sensibilização sobre conservação, enquanto muitos beneficiários à jusante conhecem pouco a ligação entre a floresta do Monte Mabu e a água que utilizam.
“A educação ambiental não podia estar só centralizada nas áreas de conservação ou àmontante, há a necessidade de se expandir.” – Gildo Nhanombe
O investigador defendeu a expansão das acções de sensibilização para as zonas beneficiárias dos serviços ecossistémicos, bem como o envolvimento de jovens, mulheres e outros actores nas áreas à jusante, reforçando a compreensão sobre a relação entre conservação, disponibilidade de água e qualidade dos serviços ecossistémicos.
Da evidência científica para um mecanismo de financiamento
O seminário não se limitou à pergunta “quanto vale a água?”. Uma parte importante da discussão incidiu sobre como transformar este valor num mecanismo que efectivamente contribua para financiar a conservação.
Os participantes discutiram questões como quem deve pagar, quem deve receber, de que forma os utilizadores devem ser diferenciados, que instituição poderia gerir os recursos e como garantir que os pagamentos correspondam a resultados verificáveis de conservação.
O exemplo da Costa Rica foi apresentado por Isilda Nhantumbo como referência para a reflexão. Nesse modelo, existe uma estrutura legal, uma fonte de financiamento definida, uma instituição intermediária que administra os recursos, contratos com os provedores dos serviços ambientais e um sistema de monitoria que condiciona os pagamentos ao cumprimento das obrigações de conservação.
Para Moçambique, a discussão apontou para a necessidade de analisar o actual quadro legal, as taxas já existentes e a possibilidade de canalizar parte das receitas associadas ao aproveitamento dos recursos hídricos para a conservação.
Foi igualmente proposta a realização de um encontro especificamente dedicado ao quadro legal e institucional, procurando envolver a Direcção Nacional de Gestão dos Recursos Hídricos e outros actores relevantes para aprofundar a possibilidade de introdução de mecanismos de financiamento associados à conservação dos recursos hídricos.
Um novo capítulo para o Monte Mabu
A discussão acontece num momento particularmente importante para Mabu. A floresta, com cerca de 9 300 hectares, está associada a 11 comunidades e a uma população aproximada de 13 000 pessoas. O processo apoiado pelo PROMOVE Biodiversidade contribuiu para a criação dos comités comunitários e da CONSERVAMABU, estrutura ligada à gestão comunitária da área.
Depois dos avanços recentes no reconhecimento formal da área de conservação comunitária, os estudos apresentados acrescentam uma nova dimensão à discussão: conservar Mabu significa também conservar água, reduzir riscos e proteger benefícios económicos que se estendem muito para além dos limites da floresta.
O desafio seguinte será transformar estas evidências científicas e económicas em instrumentos que assegurem que aqueles que beneficiam dos serviços prestados pelos ecossistemas possam também contribuir para a sua manutenção.
