PROMOVE Biodiversidade, financiado pela União Europeia, apoia o percurso que levou ao reconhecimento da área e ao reforço da organização comunitária.
Publicado em 14/09/2026
Monte Mabu ganha protecção comunitária para conservar espécies únicas e fortalecer os meios de vida
Uma floresta que guarda espécies únicas, alimenta nascentes e sustenta a vida das comunidades tem agora reconhecimento formal para a sua conservação. A celebração da atribuição do estatuto de Área de Conservação Comunitária ao Monte Mabu reuniu comunidades, Governo e parceiros em torno de uma responsabilidade comum: proteger este património e transformar o seu valor natural em oportunidades de desenvolvimento local.
Criada pelo Diploma Ministerial n.º 69/2026, publicado a 24 de Agosto, a Área de Conservação Comunitária do Monte Mabu abrange 9.341 hectares. A cerimónia, realizada no dia 11 de Setembro de 2026, em Lugela, província da Zambézia, assinala a apresentação às comunidades de um estatuto já aprovado pelo Governo de Moçambique, que reconhece a importância da participação comunitária na protecção e no uso sustentável dos recursos naturais.
Na sua intervenção, o Secretário de Estado da Terra e Ambiente, no Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas, Gustavo Sobrinho Djedje destacou a lógica de gestão participativa que sustenta esta categoria de conservação: “O nosso Estado administra estas áreas de conservação de forma participativa, estabelecendo mecanismos apropriados para a participação das entidades públicas e comunitárias, para garantir a preservação, a conservação e a restauração das paisagens.” Sublinhou ainda a importância de “(…) conservar esta paisagem muito importante, na qual também encontramos uma floresta sagrada e um lugar muito histórico.”
Um resultado do PROMOVE Biodiversidade
A formalização da área constitui um dos principais resultados esperados da intervenção do PROMOVE Biodiversidade em Mabu. Financiado pela União Europeia, o programa apoiou o trabalho que ligou o conhecimento científico à organização comunitária e à preparação do processo de reconhecimento legal. Estudos, consultas, delimitação da área e capacitação das estruturas locais ajudaram a criar as condições para esta conquista.
Quando o trabalho começou em Mabu, a paisagem ainda não tinha estatuto formal de área de conservação. Alexandra Jorge, Directora de Programas da BIOFUND, recordou este ponto para ilustrar a dimensão do percurso e a necessidade de intervir com prudência, destacando que as oportunidades de conservação e desenvolvimento devem responder às prioridades das comunidades e evitar soluções impostas de fora. Nas suas palavras: “Nem sempre o que nós pensamos que é certo ou que é importante pode ser importante para as comunidades.”
A BIOFUND gere as componentes de conservação da biodiversidade, desenvolvimento comunitário e pesquisa aplicada do programa, em articulação com a Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC), responsável pela componente de apoio institucional. No terreno, o consórcio liderado pela WWF, com a ReGeCom e a RADEZA, trabalhou com as comunidades e com as autoridades locais, distritais, provinciais e nacionais.
Em nome do consórcio WWF–RADEZA–ReGeCom, a sua representante, Alima Taju, Gestora de Conservação, destacou o papel decisivo das comunidades na conservação da paisagem: “Esta conquista não foi só dos esforços dos envolvidos, mas principalmente das comunidades que têm mantido o Monte Mabu como o encontramos hoje, garantindo, com o seu conhecimento local, as tradições e a forma de gerir a área, que esta área fosse mantida.”
A organização comunitária é uma parte central deste percurso. A criação de 11 comités comunitários contribuiu para o estabelecimento da Associação Comunitária para a Conservação do Monte Mabu, a CONSERVAMABU. A associação oferece às comunidades uma estrutura própria para representar os seus interesses e participar na gestão da paisagem.
A representante da União Europeia, Anne-Aël Pohu, Chefe de Equipa da Resiliência e Mudanças Climáticas dirigiu às comunidades uma mensagem de reconhecimento: “Porque esta conquista é vossa.” Na sua intervenção, acrescentou: “A União Europeia se sente profundamente honrada por ter podido acompanhar e apoiar este processo.”
Uma floresta de importância mundial
O Secretário de Estado da Terra e Ambiente, Gustavo Sobrinho Djedje, chamou também a atenção para o valor ecológico da paisagem: “Esta montanha, conhecida como a Ilha do Céu, tem indicadores ecológicos muito importantes.”
Com cerca de 1.700 metros de altitude, o Monte Mabu alberga uma das mais importantes florestas húmidas de média altitude da África Austral e é reconhecido como Área Chave para a Biodiversidade. Entre as suas espécies encontra-se o camaleão-pigmeu-do-Mabu, Rhampholeon maspictus, cuja distribuição conhecida está restrita a esta montanha. A víbora-do-Mabu, Atheris mabuensis, e o pequeno lagarto Lygodactylus mabu são outros exemplos da riqueza que torna esta paisagem tão singular.
A protecção desta floresta tem também um valor quotidiano. As nascentes e os cursos de água que dela dependem servem as famílias e a agricultura. Manter a floresta conservada ajuda a proteger os solos e os recursos hídricos dos quais dependem actividades económicas dentro e fora da área.
Da conservação às oportunidades de rendimento
O apoio do PROMOVE Biodiversidade aos meios de vida inclui a agricultura sustentável e a apicultura. A BIOFUND documentou também o desenvolvimento das cadeias de valor do feijão e do café em parceria com o sector privado. Estas actividades podem aproximar a conservação das necessidades das famílias, desde a produção de alimentos até à obtenção de rendimento com a venda dos produtos. Alexandra Jorge apontou a evolução da cadeia de valor do mel como um sinal encorajador de que algumas das soluções inicialmente discutidas com as comunidades podem funcionar.
A directora de programas da BIOFUND, Alexandra Jorge, destacou a necessidade de ampliar os benefícios: “Precisamos ampliar as ações com apicultura e com agricultura de conservação sustentável para gerar benefícios concretos para mulheres, homens e diferentes gerações.”
O turismo de natureza constitui outra oportunidade. A floresta, as paisagens de montanha e a diversidade de aves oferecem potencial para caminhadas, observação da natureza e visitas acompanhadas por guias locais. O desenvolvimento desta oferta pode criar procura por alojamento, alimentação e produtos das comunidades. Concretizar esse potencial exige capacitação, condições de acesso e uma gestão que respeite a floresta e os locais de valor cultural.
Alexandra Jorge salientou igualmente a importância de capacitar a CONSERVAMABU para celebrar acordos, gerir recursos e reforçar a sua autonomia com apoio técnico. Associou esse futuro às oportunidades de aprendizagem: “A educação também é decisiva, apoiamos duas escolas e esperamos que outras iniciativas alarguem esse apoio.”
O desafio agora é consolidar os resultados
Anne-Aël Pohu descreveu Mabu como talvez a mais desafiante das três áreas-alvo do PROMOVE Biodiversidade, sobretudo devido à acessibilidade e à logística, mas sublinhou o potencial da paisagem em termos de conservação, recursos naturais, biodiversidade e envolvimento comunitário. Para a representante da União Europeia, os avanços observados mostram também que a sustentabilidade exige uma visão para além do ciclo de um único projecto: “Não é um programa de cinco anos que podemos conseguir alcançar mudanças significativas. Isso vai demorar mais tempo e vai requerer mais investimentos, mais engajamento no futuro.”
Alexandra Jorge convergiu na necessidade de continuidade: “É nessa base que eu acho que estas ações precisam de muito mais tempo do que o tempo normal de um projeto, 3, 4, 5, 6 anos.” Explicou que a capacidade da BIOFUND de articular diferentes financiamentos ao longo do tempo pode ajudar a preservar o que já foi construído, reduzir duplicações e aumentar a eficiência entre projectos. Resumiu essa lógica numa frase: “Portanto, a soma de um mais um é mais que dois, na verdade.”
O reconhecimento legal abre, assim, uma nova etapa para Mabu, não um ponto de chegada. Consolidar o trabalho apoiado pelo PROMOVE Biodiversidade exige continuidade no financiamento, capacidade de gestão local, coordenação entre parceiros e actividades económicas viáveis. O desafio é transformar o estatuto e os investimentos já feitos numa base duradoura para conservar a floresta e ampliar, ao longo do tempo, os benefícios para as comunidades que a têm protegido.
As declarações de Anne-Aël Pohu e Alexandra Jorge destacaram igualmente a complementaridade entre parceiros. Anne-Aël Pohu referiu a parceria com o sector privado como parte de uma rede mais ampla e sintetizou: “Cada ator tem um papel a desempenhar e nós não podemos trabalhar de uma forma isolada.” Alexandra Jorge apontou, entre outros contributos, a dinamização e mobilização comunitária da ReGeCom, o apoio do Governo e as competências complementares da WWF e da RADEZA.
