A Comunidade da Conservação: Do Exemplo do Ruanda aos Jovens que São o Futuro de Moçambique

Em 2020 tive a oportunidade de fazer parte da 1º edição do programa de estágios do Programa de Liderança para Conservação de Moçambique (PLCM), um programa coordenado pela Fundação para Conservação da Biodiversidade – BIOFUND. O PLCM está inserido num dos mais de 15 projectos da Fundação, denominado Mozbio2, iniciado em 2019 com financiamento do Banco Mundial. Com esta oportunidade estive integrado à equipa de M&E da BIOFUND com a qual desenvolvemos e implementámos ferramentas de monitoria das mais de 30 Áreas de Conservação beneficiárias da Fundação, tendo reforçado a capacidade técnica para o acompanhamento sistematizado das actividades financiadas.

Até hoje, lembro-me nitidamente do dia do meu primeiro contacto com o programa.
“Qual é o vosso objectivo neste estágio?”

Esta é a pergunta que foi feita a mim e a outros 11 jovens em Março de 2020, durante a “dinâmica de grupo” no dia da indução ao programa. Estávamos confusos, ansiosos. E eu não tinha a resposta, mas sabia que palavras como aprender, contribuir, partilhar ou networking deveriam ser parte da mesma.

É incrível como, nos filmes, as pessoas sabem sempre exactamente o que querem ser e escolhem precisamente o que fazer. Na realidade, muitos de nós aprendemos a responder a estas perguntas com o tempo, exposição e aprendizagem. Acho que ainda estou a compor a minha resposta e a recente oportunidade para participar no Congresso Inaugural da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) sobre as Áreas Protegidas da África (APAC), realizado em Kigali no Ruanda, desempenhou um importante papel neste processo. E mais do que ter uma resposta, fez-me querer fazer perguntas.

Como conservacionista, fiquei maravilhado com o local da realização do evento – o Ruanda deve ser um exemplo de conservação – a atitude dos ruandeses em relação ao ambiente é impressionante, faz pensar nos conceitos de Área de Protecção Ambiental e Reserva de Biosfera, tanto pela rigorosa limpeza quanto pelo nível de florestamento da sua capital, Kigali.

E 30,4% do território nacional declarados como Área Protegida não fazem jus a tudo o que é realmente feito uma vez que há inúmeras acções de conservação e pró-ambientalistas fora das Áreas designadas para este efeito.

De tanto que poderia escrever, prefiro limitar-me às duas grandes lições da minha experiência no APAC no Ruanda: primeiro, e aliás, este foi um dos principais temas de reflexão no Congresso, é a Efectividade de Gestão (nas Áreas Protegidas), — os que visitam este país devem trazer o testemunho de eficácia e eficiência, mas penso que os que têm interesse em áreas ambientais são ainda mais impactados pelos resultados que este pequeno país africano tem obtido na “sensibilização e educação ambiental”. Sim, é possível não acumular lixo fora dos locais designados para o efeito! Sim, é possível não usar sacos plásticos! Sim, é possível não jogar deliberadamente o lixo pela janela das viaturas, e a lista continua. Talvez pudéssemos repensar ainda mais a efectividade das campanhas que realizamos em prol do meio ambiente, dos regulamentos a que nos submetemos, dos números, tabelas e gráficos que reportamos, deveríamos perguntar-nos: será que temos efectivamente Áreas de Conservação, ou apenas simplesmente polígonos nos mapas e “parques na lista de categorias das ACs”?.

A segunda grande lição que dali retirei é o Sentido de Pertença. Fazer parte dos 2 400 participantes de 80 países, com uma grande representação activa de jovens, e estar com moçambicanos que têm contribuído de forma activa para a conservação da biodiversidade no meu País, desafiou-me a pensar que nós, os jovens de Moçambique, também temos um grande papel a desempenhar neste processo. Podemos gerar verdadeiro impacto e alcançar a efectividade que ansiamos, mas isso passa por assumir que somos parte da comunidade de conservação, e que somos capazes. E aceitar que somente nós, os jovens, seremos os futuros responsáveis pela continuidade das acções que estão a ser desenvolvidas para conservar a biodiversidade no presente.

Vamos encarar a realidade: a conservação não tem sido a área de trabalho mais atractiva para os jovens seguirem, comparando-a, por exemplo, com profissões que a nossa sociedade ainda valoriza de forma diferente, como a medicina, o direito, a engenharia ou a educação. Mas felizmente, nos últimos anos, as temáticas de conservação têm vindo a ganhar cada vez mais visibilidade mediática e peso social. Apesar de não garantir a quem por ela siga as promessas de comodidade ou da rotina convencional que se obtém noutras profissões, a conservação tem atraído, ainda assim, toda uma nova geração de jovens, como eu para aquilo que, mais do que uma profissão, é uma Missão para a qual estamos prontos e não esperamos recompensas em forma de conforto ou “comodidades”.

A minha constante ansiedade é de poder integrar a minha pequena contribuição para a conservação num contexto mais amplo e ainda mais importante, para encontrar a resposta da pergunta feita em 2020. Hoje sei que não é preciso ser um especialista em fauna, flora ou ecossistemas. Sei que qualquer um de nós pode, de alguma forma, ser parte da mudança, e que todos podemos, e devemos, contribuir para a conservação da biodiversidade. Se os jovens são o futuro, é preciso cuidar dele, e começar já hoje.