Quando Ahamada Muluco chegou ao Monte Mabu pela primeira vez, não sabia exactamente o que iria encontrar.
Publicado em 21/10/2026
Da construção civil à conservação: a viagem de Ahamada Muluco até ao coração do Monte Mabu
Tinha crescido no distrito de Moma, na província de Nampula. Conhecia cajueiros, mangueiras e as paisagens da sua infância. Mas nunca tinha entrado numa floresta como aquela.
A primeira reacção foi de espanto.“Quando eu entrei aqui, simplesmente fiquei admirado.”
À sua volta erguia-se uma floresta fechada, atravessada por riachos, árvores enormes e caminhos onde, em vários pontos, só é possível avançar a pé. Era um mundo muito diferente daquele que conhecia.
E, no entanto, Ahamada não tinha chegado ao Monte Mabu para estudar árvores, aves ou borboletas. Ahamada é técnico de Construção Civil. É precisamente aí que começa uma história que mostra que conservar a biodiversidade exige muito mais do que biólogos.
Uma oportunidade que começou em Moma
A história começou alguns anos antes, a centenas de quilómetros do Monte Mabu. Ahamada concluiu a 12.ª classe em 2022. Na escola, recorda-se como um jovem empenhado, que participava nos grupos de estudo e ajudava os colegas nas matérias que dominava.
Quando surgiu a oportunidade de concorrer a uma bolsa, o seu percurso chamou a atenção. Em Janeiro de 2023, jovens de Angoche, Larde e Moma iniciaram formação técnico-profissional no Instituto Politécnico da ADPP, em Nacala, através de bolsas financiadas pelo Projecto MozNorte e acompanhadas pela BIOFUND através do Programa de Liderança para a Conservação de Moçambique – PLCM. Ahamada seguiu a área de Construção Civil e concluiu a formação em 2025.
No encerramento do curso ouviu falar da 8.ª edição do Programa de Estágios Pré-profissionais do PLCM. Candidatou-se, foi seleccionado e, depois da indução no Parque Nacional de Maputo, iniciou uma nova etapa: foi colocado junto do WWF no Monte Mabu. Não imaginava ainda quanto aquela viagem iria mudar a sua relação com a natureza.
Uma trajectória, quatro apoios que se encontram
Até aqui, o percurso de Ahamada já era mais do que uma oportunidade isolada. No seu caso, diferentes investimentos, de parceiros distintos e em momentos sucessivos, acabaram por formar uma cadeia de continuidade: da formação técnico-profissional à entrada no sector da conservação, e dessa primeira experiência à possibilidade de continuar a trabalhar no terreno.
O primeiro passo foi dado com o Projecto MozNorte, financiado pelo Banco Mundial, que apoiou a bolsa através da qual Ahamada se formou como Técnico de Construção Civil. Depois, o Governo da Suécia, através da Agência Sueca para o Desenvolvimento Internacional (SIDA), financiou o primeiro período do seu estágio no âmbito do PLCM. Com a conclusão desse ciclo, está prevista a continuidade do estágio com apoio do Governo do Reino Unido, através do Foreign, Commonwealth & Development Office (FCDO), no âmbito do Programa de Conservação Comunitária e Investimento (CCIP).
Ao mesmo tempo, no Monte Mabu, as actividades que Ahamada desenvolve durante o estágio inserem-se na intervenção do PROMOVE Biodiversidade, financiado pela União Europeia. Assim, formação, experiência profissional, continuidade e trabalho no terreno encontram-se numa mesma trajectória.
Quatro apoios não financiaram a mesma iniciativa: sustentaram etapas diferentes de uma mesma trajectória. O percurso de Ahamada mostra, à escala de uma pessoa, como a complementaridade entre programas e parceiros pode transformar uma bolsa de estudo em competências aplicadas à conservação.
| Etapa do percurso | Apoio / financiador | O que tornou possível |
| Formação técnico-profissional | MozNorte / Banco Mundial | Bolsa para o curso de Técnico de Construção Civil no Instituto Politécnico da ADPP – Nacala. |
| Primeiro período do estágio | PLCM / Governo da Suécia – SIDA | Entrada no sector da conservação através da 8.ª edição de estágios do PLCM. |
| Segundo período do estágio | CCIP / Governo do Reino Unido – FCDO | Continuidade do estágio e aprofundamento da experiência profissional. |
| Trabalho no Monte Mabu | PROMOVE Biodiversidade / União Europeia | Financiamento das actividades desenvolvidas no terreno no âmbito do estágio em Mabu. |
Uma oportunidade não terminou quando outra começou: cada etapa criou condições para a seguinte.
Quando construir também significa conservar
Hoje, uma das coisas de que Ahamada mais se orgulha está a tomar forma no meio da paisagem de Mabu.
“O que eu tenho muito mais orgulho é saber que o primeiro acampamento aqui no Monte Mabu, eu estou lá na frente como supervisor.”
A sua formação em construção civil encontrou ali uma aplicação concreta. Ahamada acompanha questões técnicas ligadas à construção do acampamento e participa também no acompanhamento de duas escolas referidas na entrevista, em comunidades da região.
De repente, aquilo que aprendera numa sala de aulas em Nacala tinha um novo significado. A construção civil podia contribuir para criar condições de trabalho, apoiar infra-estruturas comunitárias e servir uma paisagem onde a conservação precisa de caminhar lado a lado com as necessidades das pessoas.
Esta ligação ganha ainda mais significado num momento histórico para o Monte Mabu. Em Agosto de 2026, o Governo de Moçambique aprovou oficialmente a criação da Área de Conservação Comunitária do Monte Mabu. A criação da área constitui o principal resultado esperado do Projecto de Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Comunitário do Mabu, no âmbito do PROMOVE Biodiversidade, financiado pela União Europeia e implementado pela BIOFUND, em coordenação com a ANAC, com actividades no terreno conduzidas pelo consórcio WWF–ReGeCom–RADEZA.
É neste contexto que Ahamada aprende que há muitas formas de ser conservacionista.
Uma floresta que se descobre a caminhar
Há, porém, uma parte de Mabu que nenhum curso lhe poderia ensinar. Para a compreender, foi preciso caminhar.
Ahamada já subiu duas vezes ao topo do Monte Mabu. Na primeira subida, saiu do acampamento por volta das oito horas. A caminhada levou várias horas. Mas, na sua memória, o destino é apenas uma parte da experiência.
“Durante a caminhada você vai perceber que tem certos pontos maravilhosos.” Recorda as árvores, os riachos, as flores e a densidade da floresta. “Tem umas árvores magníficas, bonitas.”
E depois há o momento em que se chega ao topo. Lá de cima, a paisagem abre-se.
“Você consegue observar quase toda a paisagem aqui embaixo. E isso é magnífico.”
Mas há outra memória que Ahamada descreve de uma forma ainda mais simples: respirar. “O ar lá é muitíssimo puro. Quando você chega lá em cima, você sente que esse ar que eu estou a respirar é diferente.”
Talvez seja difícil medir a transformação que acontece num momento assim. No caso de Ahamada, porém, há uma forma de a perceber. É preciso regressar à infância.
O menino que cortava mangal
Muito antes de saber o que significavam biodiversidade, gestão de recursos naturais ou conservação comunitária, Ahamada brincava entre os mangais de Moma. E fazia aquilo que muitas crianças fariam sem informação sobre o valor daquele ecossistema: cortava-os.
“Eu quando era miúdo tinha o hábito de ir cortar mangal. Eu não sabia qual era a vantagem daquilo.” Usava a madeira para fazer pequenas casas de brincar. Não havia intenção de destruir. Havia desconhecimento.
Hoje, quando olha para essa memória depois da experiência no Monte Mabu, a interpretação é completamente diferente.
“Quando eu fui perceber a vantagem de a gente conservar, fui ver que tem muitos jovens que precisam entender o valor do ambiente.”
Ahamada ainda não tinha regressado a Moma desde que chegou a Mabu, à data da entrevista. Mas sabia uma das coisas que queria fazer quando voltasse: falar com as pessoas mais próximas e explicar aquilo que agora compreende.
“Vou passar, na verdade, principalmente os que são meus familiares, pessoas mais próximas de mim, para que elas possam perceber o valor daquele mangal.”
O conhecimento faz assim uma viagem de regresso: de Moma para Nacala; de Nacala para o PLCM; do PLCM para o Monte Mabu; e, agora, de Mabu novamente para Moma. Mas regressa diferente. Conservação não é uma profissão. É uma responsabilidade
A experiência de Ahamada no Monte Mabu também questiona uma ideia frequente: a de que trabalhar em conservação é apenas para quem estudou Biologia, Ecologia ou áreas semelhantes.
Além do trabalho relacionado com construção, participou em actividades de apicultura e acompanhou capacitações sobre gestão comunitária dos recursos naturais. A 8.ª edição do PLCM reuniu jovens de áreas de formação diversas, reforçando precisamente o carácter multidisciplinar da conservação.
“A conservação é uma área que todo mundo deveria aderir, sem se importar com a área de formação. Conservação não é para simplesmente os que estão nas Áreas de Conservação, mas para todo mundo.”
É uma afirmação que ganha outro peso quando vem de um jovem que começou esta viagem como estudante de construção civil.
Hoje, Ahamada acompanha obras no coração de uma paisagem protegida, aprende com as comunidades, conhece melhor os recursos naturais e pensa no mangal da sua terra natal de uma maneira que não pensava quando era criança.
A oportunidade abriu uma porta. Mas foi ele quem decidiu atravessá-la.
Por isso, quando lhe perguntam que mensagem deixaria a outros jovens moçambicanos, Ahamada não fala primeiro de emprego, de conservação ou sequer do Monte Mabu. Fala de preparação.
“A única mensagem que eu deixo para todo mundo é dedicar-se. Não importa a área de formação. Porque você não sabe onde vai surgir a oportunidade de amanhã.”
No caso de Ahamada, essa oportunidade levou-o até uma das florestas mais singulares de Moçambique e ajudou-o a descobrir que construir o futuro também pode significar proteger aquilo que não podemos perder.
