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Publicado em 14/08/2026


Da engenharia à conservação: Como o PLCM está a formar uma nova geração de profissionais para proteger a biodiversidade de Moçambique

Quando iniciou o seu percurso académico, Adérito Henrique Chambi não imaginava que a engenharia o levaria até uma Área de Conservação. O seu sonho de infância era tornar-se electricista, mas uma mudança inesperada no caminho acabou por revelar uma nova vocação.

Natural do distrito de Inharrime, na província de Inhambane, Adérito ingressou numa escola profissional onde, por falta de vagas no curso de Electricidade, foi encaminhado para a área de Construção Civil. O que começou como uma alternativa tornou-se uma paixão. Decidiu permanecer no curso, aprofundou os seus conhecimentos e formou-se em Engenharia de Construções Rurais e Ordenamento do Território, pela Universidade Zambeze.

Em 2024, a sua trajectória ganhou uma nova dimensão quando integrou a 7ª edição do Programa de Liderança para a Conservação de Moçambique (PLCM), uma iniciativa da Fundação para a Conservação da Biodiversidade (BIOFUND) em parceria com a Administração Nacional de Áreas de Conservação (ANAC) e o Instituto Nacional de Emprego (INEP), criada para desenvolver competências e proporcionar oportunidades profissionais a jovens moçambicanos interessados em contribuir para a conservação da biodiversidade.

Colocado na Reserva Nacional de Pomene (RNP), Adérito teve a oportunidade de aplicar os seus conhecimentos técnicos num contexto onde a conservação depende de múltiplas competências. Rapidamente percebeu que a gestão eficaz de uma Área de Conservação exige muito mais do que conhecimento ecológico: requer também capacidade de planear, construir, manter infra-estruturas e desenvolver soluções adaptadas às realidades locais.

“Cheguei à Reserva e percebi que havia muitos desafios. Havia projectos urgentes e necessidades concretas. Foi uma oportunidade para aplicar o que aprendi e perceber que a engenharia também pode estar ao serviço da conservação.”

Durante o seu estágio, contribuiu para importantes melhorias na capacidade operacional da Reserva. Entre os principais resultados alcançados destaca-se a optimização do sistema fotovoltaico, através da substituição das baterias de ácido por baterias de gel, aumentando a eficiência e a sustentabilidade do fornecimento energético. O seu desempenho demonstrou o valor de integrar profissionais de diferentes áreas do conhecimento nas instituições de conservação. Por essa razão, após a conclusão do período inicial de estágio, Adérito teve a oportunidade de continuar o seu contributo na Reserva.

Foi neste período que identificou um dos desafios mais relevantes para as comunidades da zona tampão: o acesso à água.

A partir da sua formação em engenharia, desenvolveu uma proposta de sistema de abastecimento de água para uso múltiplo, inicialmente concebida para as comunidades de Muchungo e Nhaushua. A qualidade técnica e a relevância social da proposta levaram a que a iniciativa fosse posteriormente alargada às quatro comunidades da zona tampão da RNP.  Com esta iniciativa, Adérito demonstrou que a conservação da biodiversidade assenta numa abordagem integrada, onde a protecção dos ecossistemas está directamente ligada ao bem-estar das comunidades locais e à criação de condições que promovam uma relação equilibrada e harmoniosa entre as pessoas e a natureza.

“O PLCM deu-me uma oportunidade que mudou a minha trajectória profissional. Aprendi a trabalhar em ambientes exigentes, a liderar, a comunicar melhor e a encontrar soluções práticas para desafios reais de conservação.”

Quando o estágio chegou ao fim, a continuidade do seu contributo na RNP tornou-se possível através da modalidade inovadora de Apoio Pós-Estágio. Esta posição foi financiada pelo Governo da Suécia, através da Agência Sueca de Cooperação para o Desenvolvimento Internacional (SIDA), no âmbito do Programa de Conservação da Biodiversidade coordenado pela BIOFUND, por um período de 2 anos.

O percurso de Adérito ilustra o impacto de investir nos jovens como uma estratégia para a conservação da biodiversidade. Mostra também a importância da dedicação e uso das oportunidades da melhor maneira. Ao criar oportunidades para jovens profissionais de diferentes áreas, o PLCM fortalece não apenas as suas carreiras, mas também a capacidade técnica das instituições responsáveis pela gestão das Áreas de Conservação.

A conservação da biodiversidade é um esforço colectivo e multidisciplinar. Engenheiros, biólogos, economistas, juristas, gestores, comunicadores e técnicos de diversas áreas desempenham papéis complementares na construção de soluções sustentáveis para proteger o património natural de Moçambique.

Desde o seu lançamento em 2019, o PLCM tem contribuído para formar uma nova geração de profissionais comprometidos com a conservação, criando pontes entre instituições académicas, Áreas de Conservação e oportunidades de emprego.